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Carne com leite: pode ou não? O que a Torá realmente legisla?

- Halachá e Torá Escrita, qual a relação?

Iniciaremos o assunto demonstrando qual é o devido lugar em que a Halachá deve situar-se com relação às Sagradas Palavras da Torá.
No Mishnei Torá, do Rambam, na hakdamá (introdução) sobre a Messirat Torá Sh'beal pê (transmissão da Torá oral), no primeiro parágrafo, é dito:

 כָּל הַמִּצְווֹת שֶׁנִּתְּנוּ לוֹ לְמֹשֶׁה בְּסִינַי בְּפֵרוּשָׁן נִתְּנוּ, שֶׁנֶּאֱמָר 'וְאֶתְּנָה לְךָ אֶת-לֻחֹת הָאֶבֶן, וְהַתּוֹרָה וְהַמִּצְוָה' (שמות כד,יב): 'תּוֹרָה', זוֹ תּוֹרָה שֶׁבִּכְתָב; וּ'מִצְוָה', זֶה פֵּרוּשָׁהּ... וּמִצְוָה זוֹ, הִיא הַנִּקְרֵאת תּוֹרָה שֶׁבְּעַל פֶּה

"Todas as mitzvot que foram dadas a Moshé no Sinai, com suas explicações foram dadas. Como está escrito: 'E dar-te-ei as tábuas de pedra, a Lei, e o mandamento (Êxodo 24:12)'. 'Lei', essa é a Torá Escrita. E 'o mandamento', essa é a sua explicação... e 'o mandamento' é a chamada Torá oral."

Ou seja, vemos na explicação do Rambam, que a Torá Oral é a explicação da Torá Escrita (vide Arba'a Turim, chelek 2, siman 246, § 1; e também Aruch HaShulchan, chelek 1, siman 1, § 12). Em adição, vemos no Pirkei Avot, duas passagens que nos ajudam a entender mais um aspecto da Torá oral:

משֶׁה קִבֵּל תּוֹרָה מִסִּינַי, וּמְסָרָהּ לִיהוֹשֻׁעַ, וִיהוֹשֻׁעַ לִזְקֵנִים, וּזְקֵנִים לִנְבִיאִים, וּנְבִיאִים מְסָרוּהָ לְאַנְשֵׁי כְנֶסֶת הַגְּדוֹלָה. הֵם אָמְרוּ שְׁלשָׁה דְבָרִים, הֱווּ מְתוּנִים בַּדִּין, וְהַעֲמִידוּ תַלְמִידִים הַרְבֵּה, וַעֲשׂוּ סְיָג לַתּוֹרָה

"Moshê (Moisés) recebeu a Torá no Sinai, e transmitiu-a a Yehoshua (Josué), Yehoshua aos Anciãos, os Anciãos aos Profetas e os Profetas transmitiram aos homens da Grande Assembleia. Eles disseram três coisas: sejam prudentes no julgamento, formem muitos discípulos, e ergam uma cerca para a Torá." (Pirkei Avot 1:1)

E outra referência:

רַבִּי עֲקִיבָא אוֹמֵר, שְׂחוֹק וְקַלּוּת רֹאשׁ, מַרְגִּילִין לְעֶרְוָה. מָסֹרֶת, סְיָג לַתּוֹרָה. מַעַשְׂרוֹת, סְיָג לָעשֶׁר. נְדָרִים, סְיָג לַפְּרִישׁוּת. סְיָג לַחָכְמָה, שְׁתִיקָה

"Rabi Akiva disse: gargalhada e frivolidade acostumam o homem à luxúria. A Tradição é uma cerca para a Torá; os dízimos são uma cerca para a riqueza; as promessas (votos) são uma cerca para a abstinência; uma cerca para a sabedoria é o silêncio." (Pirkei Avot 3:13)

(Com relação à interpretação da palavra "סְיָג" [Siag] nos dois textos do Pirkei Avot, basta ler atentamente os comentários dos respectivos textos no livro "Ética do Sinai" [pág. 19 e pág. 176], que se deduzirá o que já foi deduzido pela maioria esmagadora de comentaristas dos textos citados.)
(E também com relação à correspondência e equivalência das expressões "Massoret" [Tradição] e "Torá Sh'beal pê" [Torá Oral], veja o comentário de Bartenura a respeito da última referência [Avot 3:13])

Bom, desses textos vemos as duas faces da Torá oral: a passiva (que são as explicações dos textos); e a ativa (que são as cercas que foram postas ao redor da Torá).
As duas, obviamente, não têm uma conotação pejorativa em si, porém, quando usadas para funções que não lhes são cabidas, nem sempre gerarão verdades. Isso é deduzido pela simples correlação entre dois textos da Brit Chadashá (Novo Testamento):

וַהֲפַרְתֶּם אֶת דְּבַר אֱלֹהִים לְמַעַן הַמָּסֹרֶת שֶׁלָּכֶם

"E assim por causa da vossa tradição invalidastes a palavra de D'us." (Mateus 15:6)

E:

הַסּוֹפְרִים וְהַפְּרוּשִׁים יוֹשְׁבִים עַל כִּסֵּא מֹשֶׁה

"Os escribas e os fariseus se sentam sobre o cadeira de Moisés." (Mateus 23:2)

Ou seja, como solucionamos essa delicada questão? Obedecemos tudo o que dizem ou devemos ponderar suas decisões passando-as pelo crivo estreito da Torá?

Daqui, as bases são formadas. Porém, antes de prosseguir, vejamos o comentário de David Stern sobre Marcos 7,2-13 (recomendamos que a passagem seja lida primeiramente):

"Os perushim (fariseus) tinham interpretado a Torá Escrita e seus sábios e rabinos tinham decretado regras adicionais. Juntos, eles passaram a ser chamados de Tradição dos anciãos e depois de Torá oral; era comprometida com a escrita, notadamente na Mishná nos séculos II e III, expandiu na Guemará nos séculos IV e V, e posteriormente em outras obras.
A explicação de Marcos da netilat yadaim, o ritual da lavagem das mãos, nesses versículos corresponde aos detalhes estabelecidos no tratado da Mishná Yadaim. No mercado, as pessoas podem tocar coisas cerimonialmente impuras; a impureza é removida à altura do pulso. Os judeus ortodoxos observam nos dias de hoje a netilat yadaim antes das refeições. A ideia racional por trás disso não tem nada a ver com a higiene, mas é baseada na percepção de que "o lar de um judeu é seu templo", sendo a mesa de jantar o seu altar, a comida o seu sacrifício e ele próprio o cohen. Uma vez que o Tanach exige que os kohanim sejam cerimonialmente puros antes de oferecer sacrifícios no altar do Templo, a Torá oral exige o mesmo antes de uma refeição.
Muitos cristãos pensam que a resposta de Yeshua à pergunta do v.5 condena toda a Tradição farisaica. Na verdade, ele se opõe apenas às práticas dos perushim que colocam a Tradição humana acima do mandamento Divino. Ele não se opõe à Tradição como tal, mas suas tradições, como demonstrado por esse exemplo (v.10-12) em que a "tradição permite anular o quinto Mandamento, 'honre seu pai e sua mãe'", ao levar o povo a devotar ao Templo dinheiro que deveriam utilizar para apoiar seus prórpios pais.
Mas assim como a legislação de uma país não pode contradizer ou suplantar sua constituição, assim também a tradição (judaica, messiânica, cristã, ou o que for) não pode violar ou alterar a Palavra de Deus. A Torá oral chega até ao ponto de implicar que pode (Bava Metsia 59a); porém de acordo com a presente passagem essa posição é inconsistente com o judaísmo messiânico."

Ou seja, Yeshua está nos ensinando que não devemos cultivar os costumes excessivos e incondizentes com a Torá, mas sim, os que permeiam de forma edificante a vida do judeu. E para começarmos com o assunto propriamente dito, queremos citar um escrito do Rabino Yitzchak Shapira shelit"a:

"Tragically, at times the jewish sages chose to forsake the 'living waters' and simplicity of the Torah in order to create their own stange, complex interpretations. Some might argue that I am speaking from both sides of my mouth, but this is not the case. The Hebrew Bible can be read by any jew and understood by any jew without Rashi or Rambam's commentaries. These commentaries are wonderful and rich, but they should not be used as a baseline of our faith. I urge all who have picked up this book to look at the Hebrew Bible for yourselves and test everything and hold on to the good. The prophet Jeremiah cried out in the name of the Mighty One if Israel to his people:

'For my people have commited two evils: they have forsaken me, the fountain of living waters, and hewed them out cisterns, broken cisterns, that cin hold no water.' (Jeremiah 2:13)
These broken cisterns represents the replacement of the Torah written on our hearts as promised in Jeremiah 31 with a complex system of laws and regulations that often is not based on God's instruction." (The return of the kosher pig, chelek alef, page 49)

"De forma trágica, por tempos os sábios judeus escolheram deixar 'o manancial de águas vivas' e a simplicidade da Torá a fim de criar suas próprias interpretações estranhas e complexas. Muitos podem argumentar que estou sendo hipócrita, mas esse não é o caso. A Bíblia Hebraica pode ser lida por qualquer judeu e ser entendida por qualquer judeu sem os comentários de Rashi e de Rambam. São comentários maravilhosos e ricos, porém não devem ser usados como base para a nossa fé. Peço a qualquer um que pegou este livro (Return of the kosher pig) que leia a Bíblia Hebraica por si mesmo e ponha em prova tudo que vier a ti, e acate aquilo que te for bom.
O profeta Jeremias lamentou-se em nome do Altíssimo de Israel, dizendo:
'Porque o meu povo fez duas maldades: a Mim me deixaram, o Manancial de águas vivas, e cavaram para si cisternas, cisternas defeituosas, que não retêm águas.' (Jeremias 2:13)
Essas 'cisternas defeituosas' representam a substituição da Torá escrita em nossos corações como prometido em Jeremias 31, por um complexo sistema de leis e regulamentos que muitas das vezes não se encontram baseados na Instrução de Deus." (Livro "The return of the kosher pig, chelek alef, pág. 49)

-Carne com leite

No assunto sobre ingerir carne com leite, vemos três versos-base na Torá:

רֵאשִׁית בִּכּוּרֵי אַדְמָתְךָ תָּבִיא בֵּית יְהוָה אֱלֹהֶיךָ לֹא־תְבַשֵּׁל גְּדִי בַּחֲלֵב אִמּוֹ

. "As primícias dos primeiros frutos da tua terra trarás à casa do Eterno teu Deus. Não cozerás o cabrito no leite de sua mãe." (Shemot - Êx. 23:19)

רֵאשִׁית בִּכּוּרֵי אַדְמָתְךָ תָּבִיא בֵּית יְהוָה אֱלֹהֶיךָ לֹא־תְבַשֵּׁל גְּדִי בַּחֲלֵב אִמּו

."As primícias dos primeiros frutos da tua terra trarás à casa do Eterno teu Deus. Não cozerás o cabrito no leite de sua mãe." (Shemot 34:26)

לֹא תֹאכְלוּ כָל־נְבֵלָה לַגֵּר אֲשֶׁר־בִּשְׁעָרֶיךָ תִּתְּנֶנָּה וַאֲכָלָהּ אוֹ מָכֹר לְנָכְרִי כִּי עַם קָדוֹשׁ אַתָּה לַיהוָה אֱלֹהֶיךָ לֹא־תְבַשֵּׁל גְּדִי בַּחֲלֵב אִמּוֹ

."Não comerás nenhum animal que tenha morrido por si; ao peregrino que está dentro das tuas portas o darás a comer, ou o venderás ao estrangeiro; porquanto és povo santo ao Eterno teu Deus. Não cozerás o cabrito no leite de sua mãe." (Devarim - Deut. 14:21)

Primeiramente, vejamos o comentário de Rashi em Shemot 23:19, no qual não é simplesmente afirmado que se refere à carne em geral e ao leite em geral, mas também, há uma tentativa de basear isso nos textos da Torá. Vejamos:

 לא תבשל גדי. אַף עֵגֶל וָכֶבֶשׂ בִּכְלַל גְּדִי, שֶׁאֵין גְּדִי אֶלָּא לְשׁוֹן וָלָד רַךְ. מִמַּה שֶּׁאַתָּה מוֹצֵא בְּכַמָּה מְקוֹמוֹת בַּתּוֹרָה שֶׁכָּתוּב גְּדִי וְהֻצְרַךְ לְפָרֵשׁ אַחֲרָיו עִזִּים, כְּגוֹן אָנֹכִי אֲשַׁלַּח גְּדִי עִזִּים (בראשית ל"ח), אֶת גְּדִי הָעִזִּים (שם), שְׁנֵי גְּדָיֵי עִזִּים (שם כ"ז), לְלַמֶּדְךָ שֶׁכָּל מָקוֹם שֶׁנֶּאֱמַר גְּדִי סְתָם אַף עֵגֶל וָכֶבֶשׂ בְּמַשְׁמָע. וּבְג' מְקוֹמוֹת נִכְתָּב בַּתּוֹרָה, אֶחָד לְאִסּוּר אֲכִילָה, וְאֶחָד לְאִסּוּר הַנָּאָה, וְאֶחָד לְאִסּוּר בִּשּׁוּל מכילתא, חולין קט"ו

" - Não cozerás o cabrito - também o bezerro e o cordeiro estão incluídos (na palavra hebraica) גְדִי (guedi), porque não é גְדִי senão uma expressão de recém-nascido delicado. Que tu encontras em muitos lugares na Torá que está escrito גְדִי e foi necessário especificar depois dele עִזִים - "cabras", como (por exemplo em Gênesis 38:17): 'eu enviar-te-ei uma cria das cabras', 'as crias das cabras' (v.20), 'duas crias de cabras' (Gênesis 27:9), para te ensinar que em todo lugar que está dito גְדִי simplesmente também o bezerro e o cordeiro está implicado. E em três lugares foi escrito ('não cozinharás ao cabrito no leite de sua mãe': Êxodo 34:26; Deut. 14:21: um para proibir de comer, e um para proibir de ter benefício, e um para proibir cozinhar."

De antemão, é sabido que a palavra גְדִי , depois de extraído todo e qualquer  contexto, significa categoricamente "cabrito". E uma das provas mais simples que se pode ter disso está no Sefer Yetsirá, que é a fonte judaica mais antiga na literatura, que nomeia as constelações:

שנים עשר מזלות בעולם טלה שור תאומים סרטן אריה בתולה מאזנים קשת גְדִי דלי דגים

"Doze são as constelações no Universo:
   Áries (Talê, o Carneiro)
   Touro (Shor, o Touro)
   Gêmeos (Teomim, os Gêmeos)
   Câncer (Sartan, o Caranguejo)
   Leão (Ari, o Leão)
   Virgem (Betulá, a Virgem)
   Libra (Moznaim, a Balança)
   Escorpião (Acrav, o Escorpião)
   Sagitário (Keshet, o Arqueiro)
   Capricórnio (Guedi, o Cabrito)
   Aquário (Deli, o Aguador)
   Peixes (Daguim, o Peixe)"
(Sefer Yetsirá 5:4)

Ou seja, vemos aqui claramente a correspondência direta da palavra "גְדִי" com a imagem do cabrito (que é de fato!). E como sabemos dos conceitos de Linguística (no campo de mecanismos da comunicação), o significado e o significante tem uma relação intrínseca. Isto é, se ao falarmos גְדִי , imaginamos a figura de um cabrito (como está no Sefer Yetsirá), logo גְדִי quer dizer, sim, "cabrito"!

Uma vez transposta essa etapa, analisemos, pois, os motivos que Rashi utiliza para dizer que não é bem assim:

"Toda a vez em que aparece a palavra גְדִי inclui-se não apenas cabrito, mas também o bezerro e o cordeiro pois, em três passagens na Torá vê-se posterior a גְדִי a especificação עִזִים (izim - cabras)".

Primeiramente, é inconcebível generalizar o sentido de uma palavra utilizando 3 versos da Torá, sendo que esse mesmo termo ocorre nas Escrituras 12 vezes (Gên. 38:17; 38:20; 38:23; Êx. 23:19; 34:26; Deut. 14:21; Jz. 6:19; 13:15; 13:19; 14:6; Ct. 1:6; Is 11:6), e 7 dessas (Gên. 38:23; Êx. 23:19; Êx. 34:26; Dêut. 14:21; Jz. 14:6; Ct. 1:8; Is. 11:6) aparece o termo גְדִי unicamente (ou seja, significando cabrito), e apenas outras 5 na forma composta de גְדִי עִזִים. Isso é saltar por cima da sexta regra de interpretação de Rabi Yishmael (מפרט וכלל - miprat u'chlal, "do específico para o geral), em que se num texto estiver tanto uma parte específica quanto uma geral do mandamento, prevalece a regra geral da mitzvá. Ou seja, a palavra גדי não apenas por ser a sentença geral da regra (portanto, prevalecendo sobre o entendimento גדי עזים), mas por ser a expressão majoritária nas Escrituras, conclui-se, por conseguinte, que nos dois casos o significado de גדי é cabrito, e não um recém-nascido sem espécie definida como afirmado por Rashi.

Segundo ponto, se as Escrituras entendem גדי como também um bezerro, por que, então, quando ela assim o quer fazer, ela utiliza outra expressão, פר בן בקר, lit. um boi-filhote, ao invés de גדי (como em Shemot 29:1; Vayikrá 4:3; 4:14; 23:18; Bamidbar 7:15; 7:21; 7:27; 7:33; 7:39; 7:45; 7:51; 7:57; 7:63; 7:69; 7:75; 7:81; 8:8; 15:24; 29:2; 29:8)? Demonstrando assim claramente que o Tanach não enxerga גדי como também se referindo ao bezerro.

Terceiro ponto, citaremos um texto que nos mostrará sem sombra de dúvida que גדי não se refere ao bezerro (עגל - éguel) nem ao cordeiro (כבש - kéves), mas sim ao cabrito exclusivamente. Isaías 11,6:

וְגָר זְאֵב עִם־כֶּבֶשׂ וְנָמֵר עִם־גְּדִי יִרְבָּץ וְעֵגֶל וּכְפִיר וּמְרִיא יַחְדָּו וְנַעַר קָטֹן נֹהֵג בָּם

"Morará o lobo com o cordeiro, e o leopardo com o cabrito se deitará; e o bezerro, e o leão novo e o animal cevado viverão juntos; e um menino pequeno os conduzirá."

Vemos aqui que Isaías está usando גדי (guedi), עגל (éguel), e כבש (kéves) como animais distintos, pois caso contrário o texto perderia sua coerência.

Portanto, torna-se claro e cristalino que גדי , à luz dos textos, não engloba o bezerro nem o cordeiro, mas unicamente o cabrito.

E alguém poderia perguntar: "Mas por que o cabrito?"

Essa dúvida se dissipa quando percebemos que essa proibição de comer o cabrito no leite de sua mãe, sempre está contextualizada com o tópico de primícias. Vejamos os versos:

"As primícias dos primeiros frutos da tua terra trarás à casa do Eterno teu D'us. Não cozerás o cabrito no leite de sua mãe." (Êx. 23:19)

"As primeiras das primícias da tua terra trarás à casa do Eterno teu D'us. Não cozerás o cabrito no leite de sua mãe." (Êx. 34:26)

"Não comerás nenhum animal que tenha morrido por si; ao peregrino que está dentro das tuas portas o darás a comer, ou o venderás ao estrangeiro; porquanto és povo santo ao Eterno teu D'us. Não cozerás o cabrito no leite de sua mãe. Certamente darás os dízimos de todo o produto da tua semente que cada ano se recolher do campo." (Deut. 14:21-22)

Por que vemos essa ligação?

Eis os dados históricos:

Três vezes aparece no Pentateuco a ordem para os israelitas não cozinharem a carne do cabrito no leite de sua mãe (Êx 23:19; 34:26; Dt 14:21). Os comentaristas veêm essa ordem como uma condenação aos rituais pagãos à fertilidade praticados tanto no Egito, de onde os israelitas haviam saído, como na terra de Canaã, para onde eles se dirigiam. Jamieson, Fausset e Brown, por exemplo, afirmam que os egípcios ferviam, ao término das colheitas, “um cabrito no leite de sua mãe, e aspergiam o caldo, como um encantamento mágico, sobre os seus jardins e campos, para que estes os retribuíssem com mais produtividade na próxima estação” (Jamieson, Fausset & Brown, sobre Êxodo 23:19). Jack Finegan argumenta que os textos ugaríticos de Ras Shamra (localizada próxima à costa mediterrânea da Síria) prescrevem o ato de “ferver um cabrito no leite” como parte da “técnica mágica para a produção das primeiras chuvas” (Jack Finegan, Light from the Anciente Past, p. 148).

Ou seja, vemos que a proibição de cozinhar o cabrito no leite de sua mãe está contextualizada no assunto das primícias do Eterno, para concatenar na mente do povo que era o Eterno quem dava o sustento deles e não o ritual de fertilidade. Portanto, é-nos sanada a dúvida da exclusividade do cabrito nessa proibição devido ao contexto religioso e cultural em que o Povo de Israel acabara de emergir.

Por conseguinte, essa mitzvá faz parte do grupo de proibições concernentes ao verso: "E não andareis nos costumes dos povos que eu expulso de diante de vós; porque eles fizeram todas estas coisas, e eu os abominei." (Levítico 20:23) E um verso ainda mais explícito: "Não fareis segundo as obras da terra do Egito, em que habitastes; nem fareis segundo as obras da terra de Canaã, para a qual eu vos levo; nem andareis segundo os seus estatutos. Os meus preceitos observareis, e os meus estatutos guardareis, para andardes neles. Eu sou o Eterno vosso D'us." (Levítico 18:3)

Isto posto, deduzimos que o mandamento tange exclusivamente sobre o cabrito não apenas no contexto linguístco e textual, mas também no histórico e sociocultural. Ou seja, a Torá proíbe tão somente a cozer/comer o cabrito no leite de sua mãe. E até os dias de hoje, é estatuto perpétuo, não comemos/cozinhamos o cabrito no leite de sua mãe.


.................................. Shemuel ben Avraham (Marcos)
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Um comentário:

  1. Excelente...!!!
    Maravilhosamente excelente..!!!
    Aqui está uma clara dissertação de nosso honrado e amado shamash Shemuel (Marcos Mesquita) sobre um tema tão controverso. Na realidade a Toráh é tão simples, mas são os "homens" que com suas tradições e suas imaginações criam leis e costumes exagerados que dificultam os outros de compreender e viver verdadeiramente o que D'us ensina e quer.

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