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Estudo sobre Mussar: "É melhor dar do que receber."



ובכל הראיתי אתכם כי כן עלינו לעמל ולתמך את החלשים 
ולזכר את דברי ישוע כי הוא אמר טוב לתת מלקחת

"Em tudo vos dei o exemplo de que assim trabalhando, é necessário socorrer os enfermos, recordando as palavras de Yeshua, porquanto ele mesmo disse: 'É melhor dar do que receber'". (Atos 20:35)

Essa foi a última palavra que Paulo dissertou para os anciãos da comunidade de Éfeso, antes de sua viagem a Jerusalém.

Baseados na palavra de Yeshua, mencionada por Paulo, teceremos mais profundamente o significado e o poder espiritual que há em "é melhor dar do que receber".

O Criador dotou os seres humanos de duas forças antagônicas: a vontade de dar e a vontade de receber. A vontade de dar é a força mais elevada que o homem possui, e é única, pois trata-se de um dos atributos do próprio Criador do Universo. D'us é a essência da Dádiva; Sua Compaixão e Bondade abrangem o mundo e tudo o que nele existe. Sua Dádiva é infinitamente Pura. Ele não exige nada em troca: "... se fizerdes justiça, o que Lhe darás?" (Jó 35:7).
Isto  significa que quando O servimos, não estamos provendo algo que porventura esteja Lhe faltando. Servir a D'us é um mérito que Ele nos concedeu - para o nosso próprio bem. É o modo de agradecer o bem que Ele nos dá.
O dom que o homem recebeu de D'us para dar é, na verdade, o que o torna um ser misericordioso, capaz de transmitir alegria, ansioso por dar de si mesmo. "Façamos o homem à nossa imagem, à nossa semelhança" (Gênesis 1:26)

POR OUTRO LADO, temos a vontade de receber, fonte da tendência humana de atrair para si tudo o que estiver a seu alcance. A esta característica chamamos egoísmo. É a raiz de todo o mal do mundo.
Existem pessoas que tomam sem dar em troca. Se o fazem às vistas de todos, estão roubando; se o fazem às escondidas, estão furtando. Não raro coagem os outros a lhes darem de vontade própria aquilo que têm. Neste caso, são trapaceiros.
Há aqueles que levam o mal a todo o mundo - como os que incitam guerras e aniquilam populações. Outro ferem a indivíduos. E mesmo sendo punidos pela justiça dos homens e/ou pela justiça de D'us, a raíz do mal, isto é, a vontade de receber, não se anulou com isso. Continua firme, como sempre esteve. Por isso não podemos confiar totalmente no homem alheio e em sua civilidade, pois seu, comportamento pode estar mascarado pela vontade de enganar e de roubar. Nossos sábios há muito revelaram a falsidade humana, quando disseram: "Ore pelo bem estar do governo, pois sem o seu temor, os homens devorar-se-iam vivos" (Pirkê Avôt 3:2).

ALGUMAS OUTRAS PESSOAS tomam coisas para si sem com isso causar danos aos outros. Simplesmente tomam sem dar nada em troca. Por exemplo, os que gostam de receber presentes ou heranças, ou os que gostam de viver às custas da comunidade ou que buscam mordomias ou lucros com a inflação.
Estas duas forças, dar e receber, constituem raiz de todos os atos humanos. Essas foram as bases com as quais o Criador definiu as características das ações desse mundo (vide Chovôt Halevavôt cáp. 4). Por isso, torna-se importante analisarmos mais a fundo os seus aspectos.

Receber:


EXISTEM DUAS FORMAS de receber. A primeira é a característica das pessoas que tomam o máximo que podem e dão o mínimo, como no caso dos comerciantes e intermediários, que aproveitam qualquer oportunidade para lucrar, sem terem ponderado se o empenho e o trabalho que investiram em determinado negócio foi proporcional ao lucro obtido. Existem os espertalhões, que lucram com o fracasso ou com a ignorância alheia e não diferem em essência dos trapaceiros comuns. Entre eles, encontramos os que amealham fortunas às custas de empréstimos a juros, os que lucram às custas do trabalho alheio ou exploram seus empregados, pagando-lhes salários desprezíveis em relação ao esforço que despendem - todos estes e seus pares são pessoas que recebem muito e dão pouco.
Mais do que isso: o pouco que dão não é dádiva verdadeira. Não tem como raiz fazer o bem e não provém da vontade de dar, mas de seu oposto - a vontade de receber. Todos os atos e pensamentos desses homens estão centrados na vontade de receber. Quando dão, esperam receber sete vezes mais. O varejista, por exemplo, quando dá, espera vender mais. Se oferecer ao cliente o que tem de melhor no estoque, visa com isto vender-lhe mais. Como se isso não fosse suficiente, quando todos querem receber, cria-se um forte senso de competição e cada um tenta lucrar o máximo em todas as situações. A lógica humana não vê nada de mal nisso. Contudo, não estaria esta concorrência causando dores e sofrimentos desnecessários, e até mesmo enfermidades e mortes (como muito bem sabemos)?

O ESTILO DE VIDA dos justos é totalmente oposto ao descrito acima. Eles dão o máximo que podem e recebem o mínimo que necessitam. E aquilo que recebem é apenas um meio para seguirem dando e praticando a caridade, atitude que constitui a essência de suas vidas. Portanto, sua bondade vem de uma fonte santa: a vontade de dar. A vontade de receber, enraizada no mal, lhes é estranha. "Quanto aos santos e puros da terra, são as figuras ilustres com quem me deleito" (Salmos 16:3). São pessoas continuamente atentas às virtudes do Criador, em tudo o que fazem. Como lemos na Mishná Avot 5,14:

אַרְבַּע מִדּוֹת בָּאָדָם. הָאוֹמֵר שֶׁלִּי שֶׁלִּי וְשֶׁלְּךָ שֶׁלָּךְ, זוֹ מִדָּה בֵינוֹנִית. וְיֵשׁ אוֹמְרִים, זוֹ מִדַּת סְדוֹם. שֶׁלִּי שֶׁלְּךָ וְשֶׁלְּךָ שֶׁלִּי, עַם הָאָרֶץ. שֶׁלִּי שֶׁלְּךָ וְשֶׁלְּךָ שֶׁלָּךְ, חָסִיד. שֶׁלִּי שֶׁלִּי וְשֶׁלְּךָ שֶׁלִּי, רָשָׁע

"Há quatro espécies de seres humanos. O que diz, 'o que é meu é meu, e o que é teu é teu', este é medíocre; há quem diga que este foi o uso dos habitantes de Sodoma. Outros dizem, 'o que é meu é teu, e o que é teu é meu', estes são os ignorantes. Os que dizem, 'o que é meu é teu, e o que é teu é teu', são os justos. Os que dizem, 'o que é teu é meu, e o que é meu é meu', são os ímpios."

Os sábios estão nos ensinando que o justo possui a essência do que mencionamos acima, "o que é meu é teu" declara o atributo de dar como o Criador faz com as criaturas; "o que é teu é teu" declara o repúdio em receber, pois vê-se sempre satisfeito com o que tem.
Continua nossa Mishná a esclarecer:

אַרְבַּע מִדּוֹת בְּנוֹתְנֵי צְדָקָה. הָרוֹצֶה שֶׁיִּתֵּן וְלֹא יִתְּנוּ אֲחֵרִים, עֵינוֹ רָעָה בְּשֶׁל אֲחֵרִים. יִתְּנוּ אֲחֵרִים וְהוּא לֹא יִתֵּן, עֵינוֹ רָעָה בְשֶׁלּוֹ. יִתֵּן וְיִתְּנוּ אֲחֵרִים, חָסִיד. לֹא יִתֵּן וְלֹא יִתְּנוּ אֲחֵרִים, רָשָׁע

"Há quatro tipos de pessoas no que diz respeito ao exercício da Tsedacá (caridade). Há os que dão e que não querem que os outros deem; são os invejosos. Há os que fazem com que as outras pessoas deem, mas não querem dar; são as pessoas avarentas. Há os que dão e promovem que os outros também deem; são os homens piedosos. Finalmente, há ainda os que não dão e não querem que os outros deem; são os ímpios." (Mishná Avot 5:17)

Outro ponto é mencionado por nossos sábios: o justo não somente faz com que suas ações sejam semelhantes às ações do Criador, mas deseja que as outras pessoas façam o mesmo. Isto é, tal desejo é tão sublime e excelso que ultrapassa os próprios limites individuais, fazendo com que o anseio do homem justo transcenda sobre outras pessoas ao seu redor.

Dar:

Não existe no mundo quem não tenha dentro de si ao menos uma centelha da virtude de dar. Percebemos isso quando vemos gente que, incorrigíveis "receptores", proporcionam tudo do bom e do melhor aos seus amigos e parentes por ocasião de uma solenidade familiar. Ninguém se alegra com sua data de aniversário, casamento e outras comemorações se não compartilha com outros. O homem traz em seu âmago um ímpeto inato pela vida em comunidade, seja do tipo que for (por este motivo, a prisão, na verdade, um alijamento da sociedade, é considerado tão séria punição). Qual a origem desta tendência? É a centelha da virtude de dar.
Todos ansiamos por ter filhos. Identificamos neste desejo dois tipos de motivação. Por um lado, queremos uma prole que dê continuidade às nossas vidas, que nos proporcione a sensação de que a morte não porá fim aos nossos esforços que fizemos. Existe, porém, um motivo mais forte: queremos ter a quem brindar com nosso amor e nosso carinho - todo o tempo. Por este motivo, casais sem filhos tantas vezes adotam crianças e as criam como se fossem seus próprios filhos. Isto mostra a tendência a dar que faz parte da alma humana.

SURGE AQUI UMA QUESTÃO interessante. Parece que o amor e a vontade de dar são duas faces da mesma moeda. Será a vontade de dar resultado do amor? Ou será que o amor nasce ao darmos algo a alguém? Podemos, quase sempre, ver o amor como a fonte do anseio de dar. Prova é o fato das pessoas presentearem abundantemente as pessoas que amam. Mas a moeda tem outra face. O ato de dar pode gerar amor de nossa parte em relação a quem ou ao quê damos algo de nós mesmos. Sentimos amor pelo que fazemos ou pelo que ajudamos a criar, pois vemos ali uma parte da nossa essência - seja uma planta que ajudamos a crescer, algo que confeccionamos ou uma casa que construímos. O homem sente-se conectado com aquilo que cria porque se vê espelhado no objeto de sua criação.
Quando essas duas faces coexistem, isto é, inicia-se dando por amor, e ao dar-se regenera-se o amor inicial, isso torna-se um sentimento extremamente profundo. Daí entendemos um pouco melhor a intenção de Yeshua ao dizer:

"Porque D'us amou o mundo de tal maneira que deu o Seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna." (João 3:16)

Isto é, deu o Seu Filho por amor, e ao dar Seu Filho, proveu vida eterna ao ser humano; e ao conceder a vida eterna, Ele regenera o amor inicial, e mantém-se o ciclo. Por isso, anos mais tarde, o mesmo Evangelista João, declarará:

"Aquele que não ama não conhece a D'us, porque D'us é Amor." (1João 4:8)

O Amor Divino é a infinita fonte de benevolência e beneficência a todo ser humano. É o mais alto grau do atributo de Ahavá (Amor). Aqui, Yochanan faz um trocadilho hebraico incomparável: ele diz "aquele que não ama", isto é, não possui Achavá (fraternidade), não há como ter Ahavá (Amor).
De forma mais profunda, o Espírito de D'us prescruta as profundezas de D'us (1Coríntios 2:10), portanto ao revelar-se através das ações do ser humano demonstra seu primeiro fruto: o amor, como está dito:

"Mas o fruto do Espírito é: o amor, o gozo, a paz ..." (Gálatas 5:22)

Isto é, o homem transformado através do Sangue de Yeshua demonstra primeiramente o atributo de Ahavá (Amor).

Paralelamente, o Amor deve ser a finalidade de toda ascensão espiritual do crente, como está dito:

"E por isso mesmo vós, empregando toda a diligência, acrescentai à vossa fé a virtude, à virtude a ciência, (...) , e à fraternidade o Amor." (2 Pedro 1:5-7)

Tudo isso nos demonstra que assim como D'us iniciou sua Criação com a expressão de Seu Amor, e terminará ainda expressando Seu Amor; assim também, o crente começa sua carreira de fé expressando o Amor de D'us, termina sendo ele mesmo a expressão do Amor de D'us. Realizando as mesmas obras que seu Criador, como explicamos no começo.

Conclusão:

Agora sim, podemos compreender mais profundamente o que Yeshua está nos ensinando em Atos 20:35. A vontade de dar sempre deve preceder e sobrepujar a vontade de receber, pois disso depende a subsistência do mundo. Essa é a essência do Amor puro e legítimo, do qual o Criador a todo momento se utiliza para manter Sua Criação.

"Seja sobre nós a graça do Eterno, nosso D'us; estabelece Tu sobre nós as obras das nossas mãos, sim, as obras das nossas mãos estabelece-as."

................................................... Shemuel ben Avraham (Marcos)
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2 comentários:

  1. Baruch Hashem..!!!

    Excelente shiur-estudo de nosso amado irmão Shemuel.. O desejo de Dar nos aproxima de nosso maravilhoso DEUS, ADONAY, pois é uma grande verdade é que Ele sempre está doando de sí mesmo à Criação e em especial ao Homem. Maravilhosas palavras de nosso Messias e Rei Yeshua.
    Muito bom..!!!

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