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O Evangelho de Marcos - Parte 1

O Evangelho de Marcos
Parte 1




Uma das questões mais importantes que precisamos responder a nós mesmos é "Quem é o Messias?". Não somente para conhecer a sua identidade, mas também o que ele fez e ainda irá fazer. Se não o conhecermos devidamente, corremos o risco de assumir uma postura inadequada perante ele. É com o intuito de responder essa pergunta que vamos estudar os Evangelhos, mais propriamente o livro de Marcos. Vamos analisar os capítulos, versículos e até mesmo determinadas palavras, de tal forma que a nossa compreensão seja a mais apropriada possível. Vamos analisar como foi o seu ministério, porque ele veio e porque retornará.

Primeiro Verso


"Princípio do Evangelho de Yeshua HaMashiach, Filho de D'us."


A primeira palavra que vemos no livro de Marcos é "princípio". Existe alguma explicação para isso? Do mesmo jeito que Marcos começa o seu evangelho com a palavra "princípio", nós vemos que o livro de Gênesis se inicia com a palavra bereshit, que significa "no princípio". Há uma conexão, portanto, entre o capítulo inicial de Gênesis e o que veremos no capítulo inicial de Marcos. Enquanto o livro de Gênesis se dedica a falar sobre a criação, Marcos está focado em tratar sobre a redenção. De acordo com os sábios do povo judeu, esses dois conceitos estão ligados um ao outro, sendo que um dos meios pelos quais se define a redenção no judaísmo é a segunda criação. 

O livro de Marcos continua dizendo: "Princípio do evangelho". Quando se lê a palavra evangelho, o que vem à mente? Alguém diria que são boas-novas e realmente são. Mas o termo evangelho significa especificamente boas-novas concernentes a redenção. Um judeu que ouvisse essa palavra poderia dizer "Isso não se aplica a mim! Evangelho é um conceito gentílico.". Mas na verdade esse termo é muito usado pelo profeta Isaías. A palavra hebraica usada por Isaías para se referir a evangelho é levasser¹, que basicamente quer dizer evangelizar ou compartilhar as boas-novas. Essa palavra divide sua raiz com bassar, que significa carne em hebraico. O evangelho é, no fim das contas, as boas novas de que "o Verbo se fez carne e habitou entre nós"².

Marcos segue escrevendo: "Princípio do evangelho do Messias Yeshua, Filho de D'us". Não haveria nenhum problema se Marcos descrevesse Yeshua como Messias apenas. Mas ele faz questão de destacar a sua identidade como Filho de D'us. Esse mesmo título reaparece no momento que Yeshua está diante do sanhedrin (sinédrio). O sumo sacerdote pergunta a ele: "És tu o Messias, Filho do D'us Bendito?", e Yeshua afirma: "Eu sou". O sumo sacerdote, então, rasga as suas roupas e diz: "Ouvistes a blasfêmia". Quando Yeshua diz que realmente é o Filho de Hashem atribui a si um caráter divino, como sendo aquele que veio para fazer o trabalho da redenção. Ser Filho de Hashem é o mesmo que estar um patamar abaixo do Todo-Poderoso.


Segundo Verso

"Como está escrito nos profetas: Eis que Eu envio o Meu anjo ante a tua face, o qual preparará o teu caminho diante de ti."


No versículo 2, Marcos escreve: "Conforme está escrito na profecia de Isaías". Dentre os profetas, Isaías era um dos mais bem conhecidos. A cada shabat (sábado) se lê uma porção da Torá e uma dos profetas, sendo Isaías o profeta lido com maior frequência. Marcos menciona Isaías por uma razão simples. Sua intenção é mostrar os planos de Hashem para trazer salvação.

Terceiro e Quarto Verso

"Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Eterno, endireitai as suas veredas.
Apareceu João Batista no deserto, e pregando o batismo de arrependimento, para remissão dos pecados."

Logo após a citação da passagem de Isaías, vemos no versículo 4 a quem ela se refere: "apareceu João Batista no deserto". O livro de Números em hebraico é conhecido como Bamidbar, que literalmente significa "no deserto". Nós sabemos que Hashem sentenciou o povo a caminhar quarenta anos por essas regiões. Mas por que especificamente em um deserto? Ninguém consegue viver facilmente em um lugar tão inóspito. Hashem estava ensinando o seu povo a confiar nEle, depender dEle e contar com Ele. O motivo pelo qual João preparava o caminho do Senhor em um deserto é a mensagem passada por essa região. Ele quer nos ensinar a contar com Hashem, a confiarmos nEle. E o meio pelo qual fazemos isso é baseando as nossas vidas na palavra de Hashem. João não foi para a cidade mais populosa nem para a cidade santa de Jerusalém e começou a pregar. Ele foi para o deserto, onde não havia ninguém. E devido à unção que havia sobre ele e ao chamado de Hashem na sua vida, pessoas começam a ir até ele.

Ao mencionar João, Marcos emprega um título às vezes problemático. O termo batista, tal como evangelho, é tido como uma invenção dos gentios, que não possui nenhuma relação com o judaísmo. Mas seu significado é literalmente aquele que imerge ou realiza imersões. Na verdade, imersões sempre fizeram parte de vida judaica. Se você for a Israel visitar um sítio arqueológico e perguntar ao guia como ele sabe que aquelas construções foram de uma antiga comunidade judaica, ele lhe explicará que a presença de micvot são a prova disso. Micvê é uma piscina própria para banhos de purificação.

Uma das maiores expressões de imersão para o povo judeu é a passagem pelo Mar Vermelho durante o êxodo do Egito. O conceito de imersão transmite a ideia de transição, mudança, ser santificado para uma finalidade. O que nós vemos é que João foi separado para um propósito e está chamando outras pessoas, a fim de se prepararem para esse mesmo propósito, que é o reino de D'us. Toda a discussão dos quatro evangelhos e dos outros escritos da Brit Chadashá (Novo Testamento) giram em torno do reino de Hashem. A primeira fala de Yeshua registrada por Marcos é: "O tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo; arrependei-vos e crede no evangelho"³.

Ainda no versículo quatro, está escrito: "pregando batismo de arrependimento para remissão dos pecados". A palavra hebraica para arrependimento, teshuvá, pode ser simplesmente traduzida como "voltar". Algumas vezes também pode ser entendida como "resposta". Mas nesse contexto, o termo se refere a um retorno baseado na verdade. No grego, a palavra para arrependimento, metanoya, revela algo a mais. Esse termo é constituído de duas palavras diferentes: meta e noya. Meta significa "com" ou "depois" e noya, "conhecer" ou "conhecimento". Arrependimento é o que você faz com o conhecimento, com a verdade de Hashem, com o fato dEle ser santo e ter chamado o seu povo para ser santo; é o que você faz com a sua palavra que nos mostra as suas expectativas e como nós todos pecamos e estamos destituídos da glória de D'us. Depois que se toma conhecimento existe a responsabilidade de colocar aquela verdade em prática. O objetivo principal desse estudo não é somente conhecer quem é o Messias ou o que ele fez, mas também promover uma reação condizente com tudo isso.

Quinto Verso



"E toda a província da Judéia e os de Jerusalém iam ter com ele; e todos eram batizados por ele no rio Jordão, confessando os seus pecados."


No versículo cinco, nós lemos: "Saíam a ter com ele toda a província da Judeia e todos os habitantes de Jerusalém". Como seria possível que essas pessoas estivessem saindo de suas cidades e indo ver João no meio do deserto? A resposta é que elas eram movidas pela verdade. Elas tinham convicção que precisavam fazer aquilo. E quanto a nós, somos movidos pela verdade de D'us? Nós reagimos de forma condizente ou continuamos tendo a vida que queremos? Se ofertamos as nossas vidas a Hashem, não ficamos mais no controle, não vivemos mais em desobediência e em rebelião contra Ele.

Sexto Verso


"E João andava vestido de pêlos de camelo, e com um cinto de couro em redor de seus lombos, e comia gafanhotos e mel silvestre."


No versículo seis, Marcos segue escrevendo: "As vestes de João eram feitas de pelos de camelo". Hoje em dia, é possível ir a uma loja e comprar uma roupa de pelos de camelo. Mas a dois milênios atrás no Oriente Médio, roupas desse tipo não eram uma coisa desejável. Animais como o camelo eram utilizados para o transporte. Não seria razoável abater um camelo para se tirar o seu couro. As pessoas só pensariam em fazer isso se o animal morresse ou se ele não tivesse mais forças para trabalhar, por motivo de doença ou velhice. Seu couro já não seria mais bonito como de um animal jovem e saudável. Esse seria o tipo de roupa mais simples para se vestir. Ao invés de investir dinheiro em roupas, João usa aquilo que havia de mais barato, aquilo que era quase gratuito.

Além das vestes feitas de pelos de camelo, Marcos faz questão de relatar que João usava um cinto. Frequentemente na Bíblia, usar cinto expressa a prontidão da pessoa em servir. Quando os filhos de Israel comemoraram Pessach (páscoa judaica) pela primeira vez no Egito, eles foram encomendados a comerem com suas sandálias nos pés e com seus lombos cingidos. A razão disso era estar pronto para ir embora e servir a Hashem. João foi alguém que não dava ênfase às coisas desse mundo, mas, sim, a estar preparado para levar a vontade de Hashem.

Continuando no mesmo versículo, vemos que João possuía uma alimentação bastante singular: "e se alimentava de gafanhotos e mel silvestre". Se você fizer uma busca mais aprofundada sobre o que seria esse mel, verá que, na verdade, era uma comida pastosa feita com tâmaras ou figos⁴. Muitas das vezes feita com as frutas que estavam caídas no chão. A simplicidade de João com as coisas desse mundo é reiterada por Yeshua: "Observai as aves do céu: não semeiam, não colhem, nem ajuntam em celeiros; contudo, vosso Pai celeste as sustenta. [...] Considerai como crescem os lírios do campo: eles não trabalham, nem fiam"⁵. Nenhum deles se preocupa com sua comida ou vestimenta, mas mesmo assim são impressionantes com suas cores, formas, etc. A explicação é que eles confiam em Hashem. Da mesma forma, João estava confiando em Deus; estava focando na mesma coisa que Yeshua veio estabelecer, o reino de D'us.

Sétimo Verso

"E pregava, dizendo: Após mim vem aquele que é mais forte do que eu, do qual não sou digno de, abaixando-me, desatar a correia das suas alparcas."

O versículo sete diz: "E pregava, dizendo: Após mim vem aquele que é mais poderoso do que eu, do qual não sou digno de, curvando-me, desatar-lhe as correias das sandálias". Para quem lê, é importante lembrar que, dentre os nascidos de mulher, ninguém era maior que João. Mesmo assim, ele se diz nada comparável à figura do Messias. João entendia quem era o Messias; sabia que ele era o Filho de D'us e que não era um mero homem.

Oitavo Verso


"Eu, em verdade, tenho-vos batizado com água; ele, porém, vos batizará com o Ruach HaKodesh."


Marcos prossegue dizendo no versículo seguinte: "Eu vos tenho batizado com água; ele, porém, vos batizará com o Espírito Santo". Yeshua ainda não começou o seu ministério e já vemos o Ruach Hakodesh (Espírito Santo) ser mencionado. De fato, o Ruach Hakodesh é citado ainda mais cedo. Todo shabat (sábado) nas sinagogas, se lê uma passagem de Isaías⁶ que fala como o Redentor viria de Sião. Nesse mesmo trecho, vemos que, em seguida, o Espírito de Deus seria colocado em seu povo. A melhor maneira para entender a mensagem contida na Brit Chadashá é entendo a mensagem do Tanach (Velho Testamento). A toda hora, observamos menções sendo feitas às escrituras. Vemos várias informações que seriam melhor compreendidas por pessoas daquela época e que, muitas vezes, passam despercebidas por nós que vivemos em um tempo diferente, numa cultura diferente, falando uma língua diferente.

Ainda no versículo oito, está escrito que o Messias iria batizá-los no Ruach Hakodesh. Quando João fala isso, está nos dizendo que Yeshua faria a remição de Israel; que ele pagaria o preço para o Ruach Hakodesh habitar em nós. No livro de Gênesis, aprendemos que a terra estava sem forma e vazia, e o Espírito de D'us pairava sobre a face das águas. Logo depois, ordem é gerada. Aquilo que estava um caos é transformado pelo Ruach Hakodesh e passa a ser bom aos olhos do próprio D'us. Yeshua veio a fim de trazer ordem às nossas vidas.

Essa é a primeira parte do nosso estudo sobre o livro de Marcos. Na próxima parte, daremos sequência com o versículo nove. Veremos mais um pouco sobre a identidade do nosso Messias Yeshua e o início de sua obra.

Notas:

1 - Isaías 40:9, 41:27, 52:7 e 61:1

2 - João 1:14

3 - Marcos 1:15

4 - John Gill’s Exposition of the Bible

5 - Mateus 6:26,28

6 - Isaías 59:20-21

Bibliografia: aqui

................................... Avraham (Lucas)
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