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Os Segredos do Livro de João - Parte 1

Os segredos do Livro de João
Parte 1



Concentramo-nos nos 14 primeiros versos do Livro de João, e analisaremos, com a benção de D'us, exaustivamente seu conteúdo através dos escritos talmúdicos, midráshicos e comentários clássicos neotestamentários.

INTRODUÇÃO
(Identidade do escritor e sua Biografia)

Embora o nome do autor não apareça no Evangelho, a tradição antiga dos primeiros crentes de maneira forte e consistente o identificou como sendo Yochanan (João). Irineu (130-200 d.e.c.), discípulo de Policarpo (70-160 d.e.c.), de abençoada memória, que por sua vez foi discípulo de Yochanan, testificou em nome da autoridade de Policarpo que Yochanan escreveu o Evangelho já em idade avançada, durante o tempo em que morou em Éfeso, na Ásia Menor (vide Contra Heresias 3.1.1). Depois de Irineu, todos aceitaram Yochanan como seu autor, sem muitos críticos. Clemente de Alexandria (150-215 d.e.c.) escreve que João, ciente dos fatos relatados nos outros Evangelhos e sendo movido pelo Espírito de D'us, compôs, o que ele chamou de "Evangelho espiritual" (História Eclesiástica de Eusébio 6.14.7). De fato, percebemos que Yochanan traz expressões e conceitos muito profundos, principalmente nos seus primeiros capítulos do Evangelho; sem contar as suas cartas.
Reforçando tal tradição, há características internas significativas no Evangelho. Enquanto os Evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas identificam a pessoa de Yochanan por nome aproximadamente 20 vezes (incluindo passagens paralelas), o seu nome não é diretamente mencionado no Livro de João. Em vez disso, o autor prefere identificar-se como o discípulo "a quem Yeshua amava" (13:23; 19:26; 20:2; 21:7,20). No entanto, a repetida autodesignação como o discípulo "a quem Yeshua amava", a omissão deliberada de Yochanan do seu nome pessoal, reflete a sua humildade e celebra o seu relacionamento com seu Senhor Yeshua. Não havia necessidade de mencionar o seu nome, pois os leitores originais entendiam claramente que ele era o autor do Evangelho. Além disso, mediante um processo de eliminação baseado na análise de material nos capítulos 20-21, esse discípulo "a quem Yeshua amava" acaba se revelando como sendo Yochanan (por exemplo em 21:24; 21:2).
O anonimato do Evangelho reforça em muito os argumentos a favor da autoria de Yochanan, pois somente alguém de autoridade bastante conhecida e proeminente como ele poderia ser capaz de escrever um livro sem precisar se quer ser identificado.

Yochanan e Yaakov (Tiago), seu irmão mais velho, eram filhos de um pescador galileu chamado Zebedeu (Marcos 3:17). [Sobre a expressão Bnei Régesh, esse nome dado aos dois irmãos era uma referência à sua personalidade forte e franca (Marcos 9:38; Lucas 9:54)].

Junto à maioria dos jovens de sua época e local, Yochanan, em sua infância, não fora aprofundado nos estudos das Escrituras; porém, após estar com o Mestre e ser cheio do Espírito (o que inclui a Sabedoria) tornou-se um exímio pregador da Salvação de D'us, anunciando as Boas-Novas junto aos demais discípulos (Atos 4:13). Yochanan é um dos três amigos mais íntimos do Mestre (juntamente com Pedro e Tiago - vide Mateus 17:1; 26:37), tendo sido testemunha ocular e participante ativo do ministério terreno de Yeshua (1Jo 1:1-3). Depois da ascensão do Mestre, Yochanan tornou-se "coluna" da congregação de Jerusalém (Gálatas 2:9). Ministrou juntamente com Kêfa (Atos 3:1; 4:13; 8:14) até ir para Éfeso (a tradição diz que antes da destruição do Templo), onde escreveu esse Evangelho e de onde os romanos o exilaram para Patmos (Ap 1:9). Além do Evangelho que leva seu nome, Yochanan também redigiu 1-3João e o Sêfer Hitgalut (Apocalipse).
Levando em conta os escritos dos primeiros crentes que indicam que Yochanan estava escrevendo ativamente quando idoso e que tinha conhecimento dos Evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas, muitos datam o Evangelho algum tempo depois da composição dos sinóticos, porém antes de Yochanan redigir 1-3João e Apocalipse. Yochanan escreveu o seu Evangelho em aproximadamente 80-90 d.e.c.
Yochanan viajou muito, trabalhou incessantemente e, depois de tornar-se líder das comunidades da Ásia, estabeleceu-se em Éfeso, aproximadamente no ano 90 d.e.c. Em Éfeso, no ano 103 d.e.c., Yochanan expirou e foi congregado ao seu povo aos 94 anos, por morte natural.


PRIMEIRO VERSO

בְּרֵאשִׁית הָיָה הַדָּבָר וְהַדָּבָר הָיָה עִם הָאֱלֹהִים, וְהַדָּבָר הָיָה אֱלֹהִים

"No princípio, era a Palavra; e a Palavra estava com o Elohim; e a Palavra era Elohim."

O Sêfer Yochanan (Livro de João) começa de forma paralela à Torá, começando com a expressão בראשית (bereshit), que significa "no princípio". Para nos ensinar que desde o princípio da Torá (isto é, o princípio da Criação), Yeshua já era a Palavra na qual o Eterno utilizou para tudo criar. Como está escrito no Livro de Provérbios (8:22;30):

יְהוָה קָנָנִי רֵאשִׁית דַּרְכּוֹ (...) וָאֶהְיֶה אֶצְלוֹ אָמוֹן

"O Eterno me criou como o princípio de Seu caminho (...) e eu estava do Seu lado como um arquiteto."

Veja que o Rei Salomão, em sua inspiração Divina, denomina essa Palavra como "Amon", que em hebraico significa "arquiteto, artífice". Mas que provém da mesma raíz do verbo "Lehaamim", que significa "acreditar, confiar, creditar"; Yeshua se identifica como sendo, portanto, o meio pelo qual o Eterno fez toda Sua criação, sendo assim, testemunha de Seus feitos, como Ele mesmo afirma: "Estas coisas diz o Amén, a testemunha fiel e verdadeira, o princípio da Criação de D'us." (Apocalipse 3:14).
Comparando as duas expressões, vemos que com a ausência dos sinais massoréticos, as duas palavras são idênticas. Ou seja, Yeshua está nos ensinando que ele é aquele que Salomão descreveu em Provérbios 8.

O que concluímos que YESHUA É O PRINCÍPIO DE TODA A CRIAÇÃO.

E isso não é apenas informado nos escritos neotestamentários; os próprios rabinos entendem que o Mashiach antecedeu a Criação:

Talmud (Nedarim 39b)

שבעה דברים נבראו קודם שנברא העולם אלו הן תורה ותשובה גן עדן וגיהנם כסא הכבוד ובית המקדש ושמו של משיח

“Sete coisas foram criadas antes que o mundo fosse formado: A Torá, A Teshuvá, O Jardim do Éden, O Gehinam, O Trono da Glória, O Templo e O nome do Mashiach (...) O nome do Mashiach como está escrito: O seu nome [do Mashiach] durará para sempre, e [existe] antes que o Sol [Salmos 72:17].”

Midrash (Agadot Hayehudim 1:1)

“No princípio, dois mil anos antes da criação dos Céus e da Terra, sete coisas foram criadas: A Torá, escrita com fogo preto sobre fogo branco, repousando no “seio” de D’us; O Trono Divino, eregido nos Céus, que posteriormente, estaria sobre as cabeças das Chaiot; O Paraíso, à direita de D’us; O Gehinom, à esquerda de D’us; O Santuário Celestial, diretamente à frente de D’us, tendo uma jóia fincada no Altar, onde está esculpido o Nome do Mashiach.”

Midrash (Pessikta Rabati 33:1)

אתה מוציא מתחילת ברייתו של עולם נולד מלך המשיח שעלה במחשבת עד שלא נברא העולם כן הוא [אומר] ויצא חוטר מגזע ישי (ישעיה י"א א') אינו אומר כאן וְיָצָא אלא וַיֵּצֵא

“Você encontrará que no começo da criação do Universo, o Rei Messias já veio a ser, porque ele já existia no pensamento de D’us muito antes do Universo ter sido criado. Da sua existência as Escrituras dizem, ‘e brotou um tronco de Jessé’ [Isaías 11:1], não diz ‘brotará’, mas sim ‘brotou’, implicando que o Rebento da raíz de Jessé já veio a existir.”

Outras referências que corroboram:

1.   Pessachim 54a;
2.   Midrash Tehilim 93:2;
3.   Pirkei D’Rabi Eliezer 3:3;
4.   (Otsar Midrashim) Pirkei Rabeinu Hakadosh 3:2;
5.   (Otsar Midrashim) Chupat Eliahu, Chupa 28;
6.   (Otsar Midrashim) Pessikta Chadata 37.


Outra interpretação: Por que Yochanan começa seu livro com “Bereshit”?

Já sabemos que o primeiro verso do Livro de João é claramente baseado no primeiro do Livro de Gênesis.
Gênesis é o livro de todos os começos. Ele registra o começo da Criação, o começo do tempo, o começo da vida, o começo do homem, o começo da mulher, o começo do pecado, o começo da agricultura, o começo da criação de rebanhos, o começo da morte, o começo da criação de tendas, o começo das ferramentas de bronze e ferro, o começo da música, o começo das línguas, o começo da caça, o começo dos povos, o começo do povo de Israel e etc.
De forma semelhante, Yochanan tem o objetivo de explanar o começo da História da Salvação humana. Por isso que a vinda de Yeshua é chamada de "boa nova", em que o anjo de D'us declara:

כִּי הִנְנִי מְבַשֵּׂר לָכֶם שִׂמְחָה גְדוֹלָה אֲשֶׁר תִּהְיֶה לְכָל הָעָם. הַיּוֹם נוֹלַד לָכֶם מוֹשִׁיעַ בָּעִיר דָּוִד, הוּא הַמָּשִׁיחַ הָאָדוֹן

“... eis que vos trago boa nova de grande alegria, que será para todo o povo: hoje vos nasceu o Salvador, na cidade de David; o Senhor Messias.” (Lucas 2:10-11).

Dessa forma, Yochanan declara a todos que apesar do Mashiach (Messias) ter se revelado fisicamente milênios após a Criação, sua existência precede-a.

Prosseguindo, (João 1:1)

וְהַדָּבָר הָיָה עִם הָאֱלֹהִים

“(...) e a Palavra estava com o Elohim.”

O que significa a palavra “Elohim”? Elohim é uma palavra hebraica que normalmente significa D’us. No entanto, seu significado dependerá do contexto gramatical, pois também pode indicar “deuses”, “anjos” ou “homens poderosos”.

Na maioria das vezes, o seu sentido nas Escrituras significa o único e verdadeiro D’us de Israel (Gênesis 1:1; 3:5; Jeremias 10:10; Deuteronômio 4:32-35).

Como vimos, essa mesma palavra também é utilizada para se referir às divindades das nações pagãs vizinhas de Israel. Nesse caso, seu significado deve ser entendido como sendo “deus”, “deuses” ou “deusas”. Outro exemplo desse tipo de uso da palavra Elohim, é quando ela é aplicada ao deus dos amonitas, Quemosh (Juízes 11:24) e a deusa dos sidônios, Ashtoret (1 Reis 11:5).

A palavra Elohim também pode ser aplicada para designar homens poderosos, por exemplo, “juízes” (Êxodo 21:6; 22:8).
Essa palavra também pode se referir a seres divinos, como “anjos”. Como por exemplo: Salmo de Asafe (Salmo 82:1).
Nossa literatura traz a seguinte definição para essa palavra:

Sefer HaKuzarí (Diálogo 4:1)

“O sábio disse: O nome Elohim é um termo descritivo, que significa ‘Aquele que governa e julga’. Algumas vezes designa o domínio de todo o Universo e, por outra, partes dele, tais como as forças da natureza e esferas Celestiais. Este termo também é usado como título de uma pessoa que julga entre litigantes.”

Sefer HaKuzarí (Diálogo 4:3)

“O nome El deriva da palavra eialút, que significa poder, controle e origem de todas as forças.”

Porém, essa definição ainda não abrange todo o potencial da palavra Elohim. Para compreendermos melhor vamos analisar Êxodo 7,1:


וַיֹּאמֶר יְהוָה אֶל-מֹשֶׁה רְאֵה נְתַתִּיךָ אֱלֹהִים לְפַרְעֹה וְאַהֲרֹן אָחִיךָ יִהְיֶה נְבִיאֶךָ

“Então, disse o Eterno a Moisés: Vê que te constituí como Elohim sobre Faraó, e Arão, teu irmão, será teu profeta.”

Desse verso, também derivamos que todo aquele que adquire algum atributo Divino pode ser chamado de Elohim. Seja porta-voz, como o foi Moisés; ou exercendo a justiça, como os juízes. Portanto, há duas definições para quando o termo Elohim aparece nas Escrituras:

1)  Um ser espiritual que possui algum domínio ou poder, como espíritos malignos e anjos; e na sua forma absoluta, refere-se ao Eterno, o que tudo domina.

2)  Um representante do Eterno, que está incumbido de realizar um atributo Divino, como os juízes de Israel, um porta-voz (ex. Moisés) e etc.

Portanto, quando voltamos para João 1:1, vemos que na segunda parte, o termo Elohim é claro e evidente que se refere ao Eterno, visto que o artigo definido demonstra isso. Até mesmo nos manuscritos gregos, há a presença do artigo como se vê:


εν αρχη ην ο λογος και ο λογος ην προς τον θεον και θεος ην ο λογος


“Kai hô logos en pros ton teon” (Textus Receptus).

Ton é o artigo acusativo masculino no singular.
Finalizando essa parte, vemos Yochanan, aqui, revelando a intimidade que a Palavra tinha com D’us no início da Criação. O Rei Salomão declara:

וָאֶהְיֶה אֶצְלוֹ אָמוֹן

"e eu estava do Seu lado como um arquiteto."

O Rei Salomão declara a interação que o Mashiach teve com D’us, juntamente com a sua função. Sobre sua interação, primeiramente, ele diz: “Eu estava do Seu lado”.

Geralmente os anti-missionários trazem a seguinte objeção: “Não está escrito em Isaías 40,14: ‘Com quem tomou Ele conselho, para que lhe desse entendimento?’? O Eterno não precisa de conselheiro do Seu lado para criar o mundo!”
De fato, o Eterno não utilizou-se de conselheiro, Yeshua não foi um conselheiro na Criação, pois o Eterno e Yeshua são consoantes em pensamento; não divergem nem sequer por um único momento em suas intenções, como Yeshua mesmo dirá: “Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também (...) Na verdade, na verdade vos digo que o Filho por si mesmo não pode fazer coisa alguma se o não vir fazer o Pai; porque tudo quanto Ele faz, o filho o faz igualmente”. Portanto, HaShem quando faz a Criação, não necessitou de conselho pois primeiro, não há quem possa aconselhar o Criador Soberano, e segundo que Yeshua comunga dos meus pensamentos que o Criador. Yeshua foi o meio pelo qual o Eterno criou todas as coisas.

Prosseguindo, João 1,1:

בְּרֵאשִׁית הָיָה הַדָּבָר, וְהַדָּבָר הָיָה עִם הָאֱלֹהִים, וְהַדָּבָר הָיָה אֱלֹהִים

“No princípio, era a Palavra; e a Palavra estava com o Elohim, e a Palavra era Elohim.”

Conhecendo, agora, a definição e o contexto original do termo Elohim, conseguimos entender melhor o que o escritor nos transmite. Pois dessa vez, não há a presença do artigo definido.


Tanto no hebraico como nos manuscritos gregos, como se vê:


εν αρχη ην ο λογος και ο λογος ην προς τον θεον και θεος ην ο λογος

Ou seja, o termo Elohim, na terceira parte do verso, não está no seu absoluto, significando o D’us Todo-Poderoso, mais sim, que a Palavra era Poderosa, Elevada, possuindo autoridade e assim por diante. Portanto, a tradução interpretativa de tal, baseado no seu contexto hebraico original (pois cabe lembrar que Yochanan possuía uma mente hebraica): 

“No princípio, era a Palavra; e a Palavra estava com D’us, e a Palavra era Elevada, Poderosa, Grandiosa, Sublime.”

Continua...

............................................................. Shemuel (Marcos)
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