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Os Segredos do Livro de João - Parte 2

Estudo sobre o Evangelho de João
Parte 2



No estudo anterior, tratamos sobre:

1.     Identidade do Autor

Como sendo Yochanan HaShaliach, o discípulo amado, aquele que recostou a cabeça ao peito do Mestre. Mencionamos Irineu de Lyon e Eusébio de Cesaréia como provas extra bíblicas da autoria de Yochanan, em que até mesmo os primeiros crentes o identificavam como sendo o autor. Juntamente com confirmações internas do Evangelho que atestam sua autoria. De forma resumida, Yochanan é, unanimemente, o autor do Quarto Evangelho.

2.     Biografia do Autor

Mencionamos os aspectos gerais da vida de Yochanan, sendo ele um galileu de família humilde e não estudada (porém, temente ao Eterno), filho de Zavdai e Shlomit (Zebedeu e Salomé), comparar Mateus 27:56 e Marcos 15:40-41. Trabalhava como pescador com seu pai, junto com Kêfa e André. Depois que se tornou discípulo do Mashiach, foi ungido com o Ruach HaKodesh e pregou veementemente as Boas-Novas de Yeshua. Era conhecido como uma das “Colunas” da Kehilá (Gl. 2:9), sendo o líder da comunidade de Éfeso, lugar em que passou grande parte da vida. Posteriormente, foi exilado pelo Imperador Domitianus para a Ilha de Patmos. Yochanan voltou para Éfeso, e expirou aos 94 anos, por morte natural.

3.     O Evangelho

Como vimos, o Evangelho de Yochanan foi escrito em aproximadamente 80-90 d.e.c., sob o contexto da recente Diáspora dos judeus, com a destruição do Templo no ano 70 d.e.c. Ele possui uma abordagem distinta em relação aos sinóticos, ressaltando o plano espiritual dos fatos; o que justifica ser conhecido como “Evangelho Espiritual”, que de fato foi o objetivo inspirado do autor.

4.     Primeiro Verso

Estudamos o primeiro verso com o objetivo de resgatar o pensamento original hebraico do autor. Para isso demandamos dos próprios textos bíblicos, e de comentários rabínicos antigos, que nos mostram a forma como os primeiros crentes enxergavam a natureza do Mashiach Yeshua. Definimos, a partir dessa ótica, a palavra Elohim como sendo:

1)    Um ser espiritual que possui algum domínio ou poder, como espíritos malignos e anjos; e na sua forma absoluta, refere-se ao Eterno, o que tudo domina.

2)    Um representante do Eterno, que está incumbido de realizar um atributo Divino, como os juízes de Israel, um porta-voz (ex. Moisés) e etc.

E vimos que tanto no grego como no hebraico, fica claro que Yochanan diferencia os termos e escreve de maneira precisa. Por fim, deduzimos que a melhor tradução semântica para Yochanan 1:1 é 

“No princípio, era a Palavra; e a Palavra estava com D’us, e a Palavra era Elevada, Poderosa, Grandiosa, Sublime.”

Continuando nosso estudo, no verso 2, Yochanan declara:

הוּא הָיָה בְּרֵאשִׁית עִם הָאֱלֹהִים

“Este estava com D’us;”

No segundo verso, Yochanan se utiliza de um pronome demonstrativo: ουτος (Houtos) que significa “este, estes e etc.”, na Septuaginta, os sábios se utilizaram desse pronome para traduzir a palavra זה (este, esse). No Evangelho de Yochanan, esse pronome é geralmente usado para dar ênfase a um substantivo previamente mencionado. Mas não somente isso, ele é usado também para demarcar a exclusividade do substantivo, ou seja, Yochanan se utiliza desse pronome para dizer que apenas ele (A Palavra, O Verbo) estava com D’us no princípio e nenhum outro. Sobre isso, o Rei Salomão declara:

מֵעוֹלָם נִסַּכְתִּי מֵרֹאשׁ מִקַּדְמֵי אָרֶץ

“Desde a eternidade fui ungida, desde o princípio, desde o começo da Terra.”

Declarando que a Palavra de D’us é anterior a própria criação. Nesse verso, encontramos um segredo que Salomão, inspirado pelo Ruach Hakodesh, nos deixou. Vemos o Sofei Teivot (análise das últimas letras das palavras) nas três palavras centrais, e nos vem uma palavra: י ש י (Yishai - Jessé). Aqui há uma referência a uma profecia de Isaías, onde é dito:

וְיָצָא חֹטֶר מִגֵּזַע יִשָׁי וְנֵצֶר מִשָּׁרָשָׁיו יִפְרֶה

“Então brotará um rebento do toco de Jessé, e das suas raízes um renovo frutificará.” (Isaías 11:1)

Voltando ao verso em questão, Albert Barnes (1798-1870), clássico teólogo presbiteriano, nos traz um comentário interessante:

“Isso parece ser uma repetição do que ele já dissera no verso anterior; mas é enfatizado mais uma vez a fim de ‘guardar a doutrina’, e prevenir a possibilidade do erro. João escreve que a Palavra existia antes da Criação, e que ‘Ele estava com D’us’, mas não fica claro no primeiro verso que também a união entre a Palavra e D’us existia antes da criação; por isso, João assegura que não somente a Palavra existia antes da Criação, mas que também a sua união com o Criador também o era.”

Então, vemos aqui que Yochanan repete o fato dEle estar com D’us para ressaltar a união que a Palavra tem com o Criador. Assim como posteriormente, Yochanan dirá:

“Ninguém jamais viu a D’us; o Filho unigênito, que está no seio do Pai, é quem o revelou.” (João 1:18)

Yeshua possui uma intimidade com D’us que nenhum outro ser tem. Por isso Yeshua diz:

“Eu e o Pai somos um.” (João 10:30)

Não como a teologia trinitariana prega, mas sim, Yeshua e HaShem são concordantes, consoantes em pensamento e vontade. Nossos próprios sábios nos dirão coisas semelhantes:

Zohar I, 24a; II, 60a

“A Torá e o Santo, bendito seja Ele, são verdadeiramente um.”

Tanya, Likutei Amarim cap. 4

“A Torá, sendo o intelecto de D’us, é assim uma com o próprio D’us, enquanto um judeu une-se a ela, ele está unido com o próprio D’us.”

Pois assim Yeshua mesmo diz:

“Não oro somente por estes discípulos, mas igualmente por aqueles que vierem a crer em mim, por intermédio da mensagem deles, para que todos sejam um, ó Pai, como Tu estás em mim e Eu em Ti. Que eles também estejam em nós, para que o mundo creia que Tu me enviaste. Eu lhes tenho transferido a glória que me tens dado, para que sejam um, como nós o somos.” (João 17:20-22)

Desse verso, entendemos que a unidade entre Yeshua e HaShem não é conforme a filosofia trinitariana, mas sim, eles são um em pensamento e vontade. Nesse verso, Yeshua está mencionando uma profecia de Jeremias, em que é dito:

“E lhes darei um só propósito, um só coração e um só Caminho; a fim de que me amem com amor reverente para sempre, para o seu bem e para o bem de seus filhos no futuro.”

Portanto, através do Ruach Hakodesh e o testemunho de Yeshua cumpriu-se essa profecia com a Brit Chadashá.

Esses primeiros versos do Evangelho são muito importantes para a compreensão da relação entre Yeshua e Ad-nai, muitas das vezes mau compreendidos por muitos; por isso procuramos trazer sempre a base escriturística de todos os ensinamentos propostos. Tão grande é a importância desses versos que é mencionado no comentário de Matthew Henry:

“Austin diz (de Civitate Dei, lib. 10, cap. 29) que seu amigo Simplicius disse a ele que ele ouviu de um filósofo platônico [convertido] que os primeiros versos do Evangelho de João eram dignos de serem escritos em letras de puro ouro.”

Isso nos traz à realidade que esses versos são mais profundos do que podemos imaginar, e que apenas pela inspiração de D’us puderam ser escritos.

Ainda outro aspecto do verso 2 que podemos trazer é relatado no Vicent’s Word Studies in the New Testament:

“Nessa segunda proposição, a Palavra é posta em relação íntima com o Criador. Esse verso forma o ponto de transição para a discussão da natureza da Palavra e sua manifestação na Criação (...) A ideia do termo ‘Palavra’ envolve conhecimento, vontade, sabedoria e força; relacionado a função criativa de D’us. Logo, há uma grande ligação entre tal Palavra e as criaturas, especialmente o homem; pois sua criação prepara o caminho para a manifestação em carne da Palavra e a Obra da Redenção. A conexão entre a Criação e a Redenção é comumente compreendido, pois é dito: ‘Eu vos criei, e Eu vos levarei’ (Isaías 46:4).”

Dessa forma, entendemos por que Yochanan fala da manifestação da Palavra (Redenção) juntamente com a menção da Criação, pois estão intimamente relacionadas.

Continua...

................................................................. Shemuel (Marcos)
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