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Os Segredos do Livro de João - Parte 4


O Evangelho de João
Parte 4




Em nosso estudo anterior, tratamos do terceiro verso do Evangelho de João. Abordamos com mais profundidade a incrível ligação entre a Palavra de D’us e a Criação; demonstrando que, de fato, como é afirmado no verso, se não fosse pela Palavra do Eterno nenhuma sequer das criaturas existentes viriam a ser.
Então, prosseguindo nosso estudo, leiamos os versos que já explicamos:
“No princípio, era a Palavra; e a Palavra estava com D’us, e a Palavra era Elevada, Poderosa, Grandiosa, Sublime. E ele estava com D’us. Tudo veio a existir através dele, e sem ele nada do que veio a existir se faria.”
No quarto verso do seu Evangelho, Yochanan prossegue e diz:

בּוֹ הָיוּ חַיִּים וְהַחַיִּים הָיוּ אוֹר לִבְנֵי הָאָדָם
Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens.”

Antes de tudo, o evangelista no verso anterior declara que o Logos, i.e. a Palavra, foi o meio pelo qual o mundo foi criado originalmente. E uma parte dessa Criação consiste de “fôlego da vida”, como está na Torá, “E soprou-lhe nas narinas o fôlego da vida” (Gen. 2:7).
Rashi comenta nas seguintes palavras:

“Ele formou o homem com os dois, tanto o físico quanto o espiritual. O corpo do mundo físico, e a alma do mundo espiritual. Visto que assim ocorreu no primeiro dia; foram criados os Céus e depois a terra. No segundo, Ele cria o firmamento para os Céus, e no terceiro dia Ele diz: ‘faça-se a porção seca’, para os seres terrestres. No quarto, Ele criou as Estrelas nos Céus, e no quinto, Ele disse: ‘Encham-se as águas’, para os seres viventes. E consequentemente, no sexto deve haver mais uma conjunção entre o físico e espiritual: o homem.”

Perceba que Rashi está nos mostrando que nos outros cinco dias da Criação, HaShem uniu o físico e o espiritual, porém, em corpos separados. No sexto dia, entretanto, em um único corpo, o Eterno infla a “fôlego vivente (neshamá vivente)” no Homem, e ele torna-se uma Nefesh Chaiá (alma viva).

Aqui, já identificamos no texto da Torá o conceito da “vida” relacionada com a Criação. Esse atributo é descrito em Yeshua HaMashiach. Ele não simplesmente foi o meio para a existência da Criação; mas também é o meio pelo qual essa Criação deixa seu estado vegetativo e passa a ser uma Criação animada, i.e com vida. Filosoficamente, há 6 critérios pelos quais algo se diz vivo ou não.

1) Desenvolvimento: passagem por várias etapas distintas e sequenciais, que vão da concepção à morte.
2) Crescimento: absorção e reorganização cumulativa de matéria oriunda do meio; com excreção dos excessos e dos produtos "indesejados".
3) Movimento: em meio interno (dinâmica celular), acompanhada ou não de locomoção no ambiente.
4) Reprodução: capacidade de gerar entidades semelhantes a si própria.
5) Resposta a estímulos: capacidade de "sentir" e avaliar as propriedades do ambiente e de agir seletivamente em resposta às possíveis mudanças em tais condições.
6) Evolução: capacidade das sucessivas gerações transformarem-se gradualmente e de adaptarem-se ao meio.

Porém, percebemos que aqui o termo “vida” não é usado apenas para dizer uma “vida natural”.
Percebemos um outro ponto muito especial nesse verso. Uma vez que a mente do escritor é hebraica, vamos analisar os vocábulos hebraicos contidos nesse texto.
Quando verificamos a palavra “vida” em hebraico, diz-se חיים (Chaim). Um detalhe diferente do grego, é que o substantivo “vida” em hebraico encontra-se sempre no plural dual. Ou seja, podemos entender que no texto, Yochanan está tratando muito mais que a vida natural (física), mas também uma vida espiritual.
Yeshua constitui-se como o repositório tanto da vida natural como também da vida moral e eterna, como Shaul dirá: “Ele vos vivificou, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados” (Filipenses 2:1)
Marvin Vincent, exegeta do séc. XIX, comenta o verso nas seguintes palavras:

“Ele é o repositório da vida – física, moral e eterna – seu princípio e raiz. Existem duas palavras para vida no Novo Testamento: bio e zoe. A distinção primária é que zoe significa ‘existência’ em contraste com a morte, e bio significa o período, os meios ou o modo de existência.”

Nesse verso de João, o termo grego é zoe. Nos ensinando que a base da existência, a porção elementar da vida (ou força vital) está contida em Yeshua.
Portanto, Yochanan nos ensina que Yeshua não somente foi o meio para a Criação, no princípio; mas constantemente, a todo momento, Yeshua é o meio para a sustentação e manutenção da força vital do Universo, como Shaul nos ensina: “E [D’us] sustenta todas as coisas pela Palavra do Seu poder” (Hebreus 1:3).
Ora, Yeshua também nos traz ensinamento semelhante, “Declarou-lhe Yeshua: Eu sou a ressureição e a vida; quem crê em mim, ainda que morra, viverá” (João 11:25).
Aqui Yeshua fala tanto da vida física quanto da espiritual. E em muitos outros versos, Yeshua juntamente com seus discípulos dirão semelhantes coisas, (João 6:33; 1 João 1:1-2; 1 João 5:11; Atos 3:15; Colossenses 3:4).
Prosseguindo o verso, Yochanan declara:

“E a vida era a Luz dos homens”

Matthew Poole, teólogo do séc. XVII, escreve:

“Ele distribui a vida de acordo com o grau de todas as criaturas. Porém, em especial, o evangelista diz que ele é ‘a luz dos homens’; que ilumina a mente com uma luz da qual as criaturas vegetativas e sensíveis não são capazes; de modo que, a luz mencionada aqui não deve ser entendida como emanação de qualquer corpo lúcido, como o sol e as estrelas, pois tanto as criaturas quanto os homens são capazes disso. Mas sim, a luz pela qual discernimos as coisas espirituais; conforme o texto do apóstolo [Efésios 5,8]: ‘Outrora éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor’”

Daqui, entendemos que nesse verso, “luz dos homens” significa o correto entendimento dos conceitos espirituais, a clareza espiritual. Pois assim Yeshua afirma: “Eu vim como luz para o mundo; a fim de que todo aquele que crê em mim não permaneça nas trevas” (João 12:46).

Na literatura judaica também encontramos respaldo quanto a Luz ser o Mashiach (Chaguigá 12a):

“Está escrito: ‘E viu D’us que a Luz era boa’ (Gn. 1:4), e ‘boa’ não se refere a nada a não ser ao Justo, como é dito: ‘Dizei ao Justo, bom és’ (Isaías 3:10)”

Sobre Bereshit 1:3, o Apóstolo Shaul comenta:

“Porque D’us, que disse: Das trevas brilhará a Luz, é quem brilhou em nossos corações, para iluminação do conhecimento da glória de D’us na face do Messias.” (2 Coríntios 4:6)

Aqui, Shaul mesmo declara Yeshua como sendo a Luz Primordial. Visto que, “O povo que andava em trevas viu uma grande Luz; e sobre os que habitavam na terra de profunda escuridão resplandeceu a Luz” (Isaías 9:2).
Fazendo uma guezerá shavá (comparação de versos), Shaul conclui que Yeshua é a Luz de Bereshit 1:3.
Ainda em relação a esse assunto, Shaul traz outro verso interessante:

“E que agora se manifestou pelo aparecimento de nosso Salvador Yeshua Hamashiach, o qual destruiu a morte, e trouxe à luz a vida e a imortalidade pelo Evangelho” (2 Timóteo 1:10)

Yeshua foi o primeiro a ressuscitar dos mortos para uma vida imortal; O caminho da vida foi mostrado pela primeira vez para ele, e trazido à luz por ele; e embora a ressurreição dos mortos fosse conhecida pelos antigos do Tanach, ainda não era tão clara como agora é revelada no Evangelho; e em que é tão plenamente atestada a ressurreição de Yeshua, e de muitos dos crentes com ele, bem como a ressurreição geral no último dia; e além disso, a vida eterna, escondeu-se no seu propósito, na promessa, em seu Filho,Yeshua Hamashiach, em cujas mãos foi posto; e que ele trouxe à luz de uma maneira mais clara do que nunca antes; pela sua aparência na natureza humana, pelo seu ministério pessoal, por sua morte e ressurreição dentre os mortos, e pelo Evangelho, como pregou seus discípulos; que dá conta da natureza dela, mostra o caminho para ela, e aponta como podemos apreciá-la.
Por isso o Rei Davi diz (Salmos 36:10):

כִּֽי־עִ֭מְּךָ מְק֣וֹר חַיִּ֑ים בְּ֝אוֹרְךָ֗ נִרְאֶה־אֽוֹר׃

"Pois em Ti está o manancial da vida, na Tua Luz, veremos luz.”

Nenhum homem consegue iluminar a si mesmo. Sem o conhecimento do alto, ele não conseguirá dar um único passo no caminho da vida. Por isso, apenas na “Tua Luz”, i.e., Yeshua, conseguiremos caminhar pela vereda de D’us, alcançando a luz, que é a vida eterna dos homens.
Yochanan continua sua explanação dizendo (v. 5):

וְהָאוֹר מֵאִיר בַּחֹשֶׁךְ וְהַחֹשֶׁךְ לֹא הִשִּׂיגוֹ

"A Luz resplandece nas trevas, e as trevas não prevaleceram contra ela.”

Algo que é crucial nesse verso é entendermos o substantivo “trevas”, em hebraico, חֹשֶׁךְ  (choshech). Vejamos o que a literatura judaica nos ensina:





Rambam
Hilchot Deot 6:1

דֶרֶךְ בְּרִיָּתוֹ שֶׁל אָדָם לִהְיוֹת נִמְשָׁךְ בְּדֵעוֹתָיו וּבְמַעֲשָׂיו אַחַר רֵעָיו וַחֲבֵרָיו וְנוֹהֵג כְּמִנְהַג אַנְשֵׁי מְדִינָתוֹ. לְפִיכָךְ צָרִיךְ אָדָם לִהִתִחַבֵּר לַצַּדִּיקִים וִלֵישֵׁב אֵצֵל הַחֲכָמִים תָּמִיד כִּדֵי שֵׁיִּלִמֹד מִמַּעֲשֵׂיהֵם. וִיִתִרַחֵק מִן הָרִשָׁעִים הַהוֹלְכִים בַּחשֶׁךְ כְּדֵי שֶׁלֹּא יִלְמֹד מִמַּעֲשֵׂיהֶם. הוּא שֶׁשְּׁלֹמֹה אוֹמֵר (משלי יג כ) "הוֹלֵךְ אֶת חֲכָמִים יֶחְכָּם וְרֹעֶה כְסִילִים יֵרוֹעַ". וְאוֹמֵר אַשְׁרֵי הָאִישׁ וְגוֹ'. וְכֵן אִם הָיָה בִּמְדִינָה שֶׁמִּנְהֲגוֹתֶיהָ רָעִים וְאֵין אֲנָשֶׁיהָ הוֹלְכִים בְּדֶרֶךְ יְשָׁרָה יֵלֵךְ לְמָקוֹם שֶׁאֲנָשֶׁיהָ צַדִּיקִים וְנוֹהֲגִים בְּדֶרֶךְ טוֹבִים

“É uma tendência natural do homem ser influenciado em sua conduta e ideias por seus companheiros e associados, e para seguir o uso das pessoas de sua região. Por causa disso, é necessário que o homem esteja na companhia dos justos e se sentar perto do sábio, a fim de aprender com a sua conduta e distanciar-se dos malfeitores que seguem o caminho da escuridão, em ordem para não aprender com a sua conduta. Por tal, Salomão disse: ‘Aquele que anda com sábios será sábio, mas o companheiro dos tolos será inteligente para ele’ (Prov. 13:20); e também é dito: ‘Feliz o homem que não andou no conselho dos ímpios’ (Salmos 1:1). Da mesma forma, se um homem estiver em uma região onde os costumes perversos prevalecem e onde as pessoas não estão seguindo os caminhos justos, ele deve ir a um lugar onde os habitantes são justos e seguir o caminho do bem.”

Rambam aqui, declara “caminho da escuridão” como sendo o caminho da perversidade. Ou seja, a escuridão é o descumprimento das mitsvot da Torá. Vemos esse entendimento nos versos da Brit Chadashá:

“Para lhes abrires os olhos, e das trevas os converteres à luz, e do poder de HaSatan a D’us; a fim de que recebam a remissão de pecados, e herança entre os que são santificados pela fé em mim.” (Atos 26:18)

“Porque noutro tempo éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor; andai como filhos da luz.” (Efésios 5:8)

“E não comuniqueis com as obras infrutuosas das trevas, mas antes condenai-as.” (Efésios 5:11)

“A noite é passada, e o dia é chegado. Rejeitemos, pois, as obras das trevas, e vistamo-nos das armas da luz.” (Romanos 13:12)

Outro aspecto do sentido de “trevas” nas Escrituras é a oposição a D’us. Podendo ser conotativo à Sitra Achará (Reino de HaSatan), como é aludido no verso:

“O qual nos tirou da potestade das trevas, e nos transportou para o reino do Filho do Seu amor.” (Colossenses 1:13)

Portanto, o verso diz, “A Luz resplandece nas trevas”, nos ensinando que Yeshua é aquele que nos tira da ignorância da Lei, nos tira do domínio da Sitra Achará, nos tira da prisão da iniquidade, e nos traz para a vida eterna.

Sobre esse mesmo entendimento, John Gill, teólogo do séc. XVII, comenta esse verso dizendo:

“Escuridão que, através do pecado, veio sobre as mentes dos homens; que naturalmente estão no escuro diante da natureza e as perfeições de D’us; sobre o pecado e as consequências disso; sobre o Messias, e salvação por ele; sobre o Espírito de D’us, e sua obra sobre a alma; e sobre as Escrituras da verdade e as doutrinas do Evangelho. O homem foi feito uma criatura conhecedora, mas apesar do seu conhecimento, peca e é banido da presença de D’us, a fonte da luz. E isso traz uma escuridão sobre ele.”

................................................. Por Shmuel ben Avraham

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